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Expedição de Grupo de pesquisa grava “conversas de botos” no Pará

Quando ele vira homem e seduz jovens donzelas nas noites de festa, à beira dos rios, na Amazônia, certamente deve dizer muita coisa. Mas o que será que os botos “conversam” dentro d’água? Saber mais sobre as “falas” dos mais famosos animais míticos da região é o objetivo da expedição realizada pelos pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Biologia e Conservação de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (BioMA), ligado à Universidade Federal do Pará (UFPA) e à Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).

Entre os dias 3 e 17 de setembro, o grupo composto por biólogos, veterinários e especialistas em equipamentos de monitoramento eletrônico de mamíferos aquáticos permanecerá no mercado de Mocajuba, cidade localizada no nordeste paraense, e nas proximidades deste município, acompanhando um grupo de botos. O lugar não foi escolhido por acaso.

Por que Mocajuba? - De acordo com Gabriel Santos, biólogo que está coordenando a ação, o grupo de botos que interage com crianças próximo ao Mercado de Mocajuba já é acompanhado, há pelo menos três anos, pelo BioMA e essa familiaridade é essencial para a próxima etapa do projeto de pesquisa, já que, normalmente, esses animais são discretos, de difícil detecção. Além disso, os botos de Mocajuba pertencem a uma espécie recentemente descrita (Inia araguaiaensis), porém já se encontra em estado crítico, o que demanda esforços urgentes para a obtenção de informações sobre a espécie e, assim, auxiliar na criação de estratégias para a conservação.

“Constatamos, até mesmo com análises genéticas, que os mesmos indivíduos voltam ao mercado inúmeras vezes. E esse cenário e o comportamento atípico dos botos oferecem uma oportunidade única para o uso de tecnologia de monitoramento acústico e rastreamento, conhecido como Dtags, nestes animais”, aponta o pesquisador, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento da UFPA.

Tecnologia para “espiar” botos - Os dispositivos eletrônicos (Dtags) possuem ventosas e podem ser fixados nas costas dos botos com um simples toque. Eles não machucam os animais e já foram usados em pesquisas com mais de 20 espécies de mamíferos marinhos, mas é a primeira vez que serão usados num “golfinho de água doce”.

A expedição contará, inclusive, com a presença de Mark Johnson, da University of St Andrews, um dos criadores dos dispositivos de monitoramento acústico (Dtag) que serão usados nos botos do Pará. O projeto recebe apoio financeiro da Rufford Foundation (Reino Unido).

Normalmente, um Dtag permanece entre dois e quatro dias fixado no animal e registra um conjunto amplo de informações, como a localização, a velocidade, a profundidade e a orientação em que cada boto se encontra nos períodos de silêncio e também de vocalizações. O equipamento também permite “ouvir” o que os demais botos próximos “falam”.

Graças a essa nova tecnologia, os pesquisadores poderão “espiar” o que os botos fazem em seu habitat , inclusive embaixo d’água, e como são influenciados pelo contato com o homem. “Poderemos saber mais sobre o comportamento deles quando não os estamos vendo, saber se usam algum local específico para determinadas atividades e como interagem com os humanos. Por exemplo, descobrir se o fato de serem alimentados pelos meninos no Mercado de Mocajuba influi no comportamento do grupo de botos”, aponta o biólogo.

Conversando no rio - Todas as informações coletadas serão analisadas e relacionadas com a emissão de sons que caracterizam as “conversas” entre os botos. “Poderemos definir parâmetros vocais que, futuramente, poderão tornar possível um melhor acompanhamento dos botos, inclusive sobre as ameaças e os impactos que eles sofrem devido ao contato com os humanos”. As análises desta expedição serão, depois, publicadas na tese de Gabriel Melo-Santos e em outras publicações do grupo de pesquisa.

O biólogo conta que já possui várias horas de gravações, em vídeo e áudio, dos botos. Algumas descobertas já surpreendem. “Próximo à Ilha do Capim (Abaetetuba), no Baixo Tocantins, tivemos a chance de gravar os botos emitindo sons que mais parecem com o canto de aves durante situações bem inusitadas e únicas como a cópula. Também temos o registro do som emitido por um filhote no momento de interações sociais e contato físico com a mãe. A expedição certamente nos trará vários outros sons e poderemos chegar mais perto de saber se os botos da Amazônia possuem o assovio assinatura que já foram registrados em outras espécies de golfinhos marinhos”, espera o doutorando da UFPA.

O biólogo explica que o “assovio assinatura”, tecnicamente, é um padrão de modulação de frequência, o qual é específico de cada indivíduo. “Golfinhos nariz-de-garrafa, como o famoso Flipper, dos filmes, usam esse assovio, por exemplo, ao se aproximarem dos grupos sociais. Outro integrante do grupo, então, reproduz assovio semelhante, para sinalizar que reconhece o ‘amigo’ que chegou. É um fenômeno muito interessante que demonstra a inteligência e a complexidade da comunicação entre esses animais e pode estar acontecendo nos rios da Amazônia sem nós sabermos”.

• Serviço:
Expedição para acompanhamento acústico de botos em Mocajuba, no Pará
Período: 3 a 17 de setembro
Informações no site ou no Facebook do BioMA.    
Contato: bioma.ufpa@gmail.com
Saiba mais sobre as Dtags acessando aqui.
Saiba mais sobre as interações entre meninos e botos em Mocajuba aqui

Texto: Glauce Monteiro – Assessoria de Comunicação da UFPA
Fotos: Acervo do BioMA

Publicado em: 01.09.2016 18:01